Encenador alemão Heiner Goebbels cria peça sem atores

'Stifters Dinge', que terá sessões dentro da 2ª MITsp, é um 'espetáculo-instalação' com jogos de luz e som
Para diretor, estrutura é também uma escolha política e um meio para quebrar a hierarquia no trabalho artístico

O teatro nunca esteve tão próximo das artes plásticas. Destaque da MITsp - Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, o diretor e compositor alemão Heiner Goebbels mostra a partir de terça (10) "Stifters Dinge", uma experiência nova para espectadores.

Trata-se de um "espetáculo-instalação": uma peça sem atores. Sem enredo pré-definido. E que propõe uma vivência contemplativa a partir de jogos de luz, som, água e fumaça, entre outros elementos que normalmente são personagens secundários --e que se tornam protagonistas.

Para Goebbels, há um aspecto político na escolha: a ideia de um mundo sem hierarquias. Além disso, ele busca mexer com a noção do tempo do espectador. Faz chover em cena. Transforma a chuva em neblina. Coloca-a para dançar ao som de um concerto de piano sem pianistas.

"Stifters Dinge" (coisas de Stifter) empresta seu nome de Adalbert Stifter (1805-68), escritor austríaco cujas obras essencialmente narrativas têm personagens descrevendo minuciosamente seus entornos.

"Stifter é muito moderno, faz o leitor viver em tempo real as situações descritas, nos faz compartilhar a experiência dos personagens, algo próximo do que buscava Heiner Müller", diz o diretor à Folha.

Para Antonio Araújo, idealizador da MIT, a criação de Goebbels é uma experiência renovadora. "Os elementos usados geram uma viagem por um universo sensorial, plástico e visual", explica.

Araújo classifica Goebbels --encenador aclamado, que já criou instalações sonoras para o Centre Georges Pompidou (Paris), foi compositor das obras de Heiner Müller e tem duas indicações ao Grammy (em 2001 e 2004)-- como um dos diretores mais ousados da cena mundial. "Não entendo como até hoje ele nunca tinha se apresentado no Brasil."

"Stifters Dinge" (2007) nasceu após "Eraritjaritjaka" (2004), experimento no qual os atores saíam de cena em certo momento. Segundo Goebbels, esse estranhamento criou no espectador a capacidade de navegar sobre a cena de uma maneira mais livre.

Para o encenador, a arte deve estimular a curiosidade e se manter aberta à interpretação da plateia. "Depois das sessões de 'Stifters Dinge', costumamos ouvir os espectadores dizerem que estão felizes, pois ninguém falou o que eles deveriam pensar."

GABRIELA MELLÃO
Folha de Sao Paolo (BR), 10 March 2015